TEXTO CRÍTICO


Paisagens Submersas

  • Marilice Corona

“No fundo da matéria cresce uma vegetação obscura; na noite da matéria florescem flores negras. Elas já têm seu veludo e a fórmula de seu perfume.” Gaston Bachelard

Gaston Bachelard principia seu livro A água e os sonhos distinguindo duas imaginações que considera indispensáveis ao estudo filosófico da criação poética: a imaginação formal e a imaginação material. A primeira estaria ligada ao devir das superfícies, à sedução e à beleza sendo que a imaginação material apontaria para o mergulho em profundidade. Para o autor, “essas imagens da matéria nós as sonhamos substancialmente, intimamente” e, nesse caso, sugere “que encontremos, por trás das imagens que se mostram, as imagens que se ocultam, de modo a atingir a própria raiz da força imaginante”. Essa distinção pareceu-me oportuna para tentar aproximar-me dos trabalhos de Emanuel Monteiro.
Paisagens submersas reúne um conjunto de desenhos no qual essas duas forças imaginantes atuam juntas. A princípio detectamos algumas imagens: uma cadeira, flores, raízes, sementes e outros. Mas a intensidade das imagens está na força da matéria que lhes dá vida. Emanuel não utiliza materiais convencionais na fatura de seus desenhos. O artista vai buscar no quintal da casa paterna no Paraná ou nos arredores de sua morada temporária em Porto Alegre ou, então, na região onde sua mãe nasceu, a matéria prima para produzir suas tintas. Terra, sementes e flores permanecem por longos dias submersas em potes de água fechados. Como um alquimista, Emanuel observa as “conservas” e aguarda a transformação da matéria. A flor macerada, úmida e decomposta transmuta-se em tinta. O tempo e sua inexorável passagem estão implicados desde o início de seu processo de criação. A água, símbolo da vida, do movimento e da transformação altera a matéria e agrega-se a essa. Feito poção, a nova substância derrama-se sobre a extensão do papel e a natureza absorvente do suporte vai retendo aos poucos os resíduos depositados pelo artista em busca da configuração das formas. Se, por um lado, a água reflete a voracidade do tempo, cabe ao suporte o papel da memória. A imaginação orgânica se completa na medida em que tinta, suporte e formas derivam da mesma origem. Suas figuras manifestam-se tão fluidas e aquosas quanto o fundo em que habitam. Delineadas por linhas tênues e de extrema delicadeza declaram o fracasso de uma retenção completa diante do inevitável transbordamento da mancha. Análogas ao trabalho da memória, as imagens de Emanuel apresentam-se submersas em uma atmosfera enevoada, monocrômica, com tão pouco contraste como as suaves lembranças que caracterizam o sentimento de uma grande distância. Ao desdobrar para os lados e para baixo as páginas do que poderia compor um livro, seria possível dizer que o artista intenciona quebrar com a leitura sequencial e íntima que o caracteriza. Uma leitura que, habitualmente, se desenvolve da esquerda para a direita e se estrutura em começo, meio e fim. Ao desdobrar as páginas, Emanuel nos oferece o plano e a profundidade, tudo exposto a um só tempo. Do livro não retira somente o formato das páginas, mas traz dele a escrita como elemento plástico e sígnico. Aqui a suavidade da linha desaparece e o que vemos surgir são os sulcos inundados de líquido em uma grafia pontiaguda e urgente.
Emanuel Monteiro convida-nos a olhar através da janela de seu quintal e, se o fizermos em profundidade, talvez de lá avistemos, e não sem nostalgia, as Paisagens submersas de um ciclo em que todos estamos envolvidos.

(Texto realizado no outono de 2015.)


Camadas de Memórias //Sedimentações de Tempos

  • Talitha Motter

“Uma das coisas que me interessa no livro é essa ideia de passagem” (MONTEIRO, 2014).

Nos livros, sendo eles de artista ou não, está contida uma ideia de passagem, percebida quando a estrutura formada pela sobreposição de folhas de papel é desvelada, no momento em que as mãos escolhem abrir um livro em qualquer uma das páginas. Após a essa abertura, as folhas, uma a uma, vão sendo levantadas pelos dedos e deixadas cair no lado oposto de onde vieram. Passagem concreta para quem vê algo se movendo, mas também passagem das memórias ali impressas por Emanuel Monteiro. Em cada página, camadas de matérias: flores e sementes, recolhidas do quintal de sua casa em Cambé/PR ou de sua atual residência em Porto Alegre; terras de diversos locais do país, pelos quais passou; palavras; textos e imagens de objetos, de detalhes do entorno que o rodeia, que o alimenta. Conforme o artista: […] “vou misturando essas vistas das paisagens de vários lugares, colocando isso no mesmo lugar, no caso o livro. […] Como se esses vários lugares, esses vários tempos pudessem habitar o mesmo espaço” (MONTEIRO, 2014). Assim, a passagem das páginas, quando folheamos os livros, podem revelar outros tempos.
[…]

(Talitha Motter é editora e curadora. Texto completo publicado na edição n.5 de nov. de 2014 da Arte ConTexto, disponível em: http://artcontexto.com.br/artigo-talitha_motter.html).